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Economia

Juros do cartão de crédito rotativo disparam para 435,9% ao ano e apertam orçamento das famílias em fevereiro

30 mar 2026 - 13h04 Joice Gomes   atualizado às 13h07
Juros do cartão de crédito rotativo disparam para 435,9% ao ano e apertam orçamento das famílias em fevereiro Taxas abusivas do cartão de crédito rotativo chegam a 435,9% ao ano em fevereiro, segundo Banco Central. (Imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo)

As famílias brasileiras enfrentam um cenário cada vez mais apertado com a disparada dos juros do cartão de crédito rotativo, que alcançaram 435,9% ao ano em fevereiro, conforme dados divulgados pelo Banco Central.

Essa taxa representa um aumento de 11,4 pontos percentuais em relação a janeiro, quando estava em 424,5% ao ano, consolidando o rotativo como a modalidade de crédito mais cara do mercado financeiro nacional.

Endividamento em patamar histórico

O peso desses juros elevados se reflete diretamente no bolso dos consumidores, com 80,2% das famílias declarando possuir dívidas em fevereiro, o maior índice da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), iniciada em 2010 pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Dentre as dívidas, o cartão de crédito é citado por 85% dos endividados, seguido de carnês de loja (16%), crédito pessoal (12,3%) e financiamentos habitacionais (9,8%). Famílias de maior renda, acima de 10 salários mínimos, viram o endividamento subir para 69,3%, usando o crédito para manter o consumo sem comprometer reservas.

A inadimplência no rotativo do cartão chegou a 63,5%, sinalizando um ciclo vicioso onde os juros compostos multiplicam rapidamente as dívidas não quitadas.

Contexto macroeconômico pressiona

A escalada dos juros acompanha um período de política monetária restritiva, com a taxa Selic mantida em níveis elevados até março, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central optou por um corte inicial de 0,25 ponto percentual, baixando-a de 15% para 14,75% ao ano.

Essa medida, a primeira redução em quase dois anos, busca equilibrar a inflação projetada em 3,99% para 2026, dentro da meta de 3% com tolerância de 1,5 ponto. No entanto, o impacto nas taxas de cartão demora a se materializar, pois bancos repassam custos operacionais e riscos de inadimplência aos clientes.

Outras linhas também subiram: o cheque especial chegou a 147% ao ano (+9,6 p.p.), enquanto o crédito consignado, opção mais acessível, figura em 28,2% (+0,6 p.p.). Para uma dívida de R$ 800 no cheque especial por um ano, o valor salta para R$ 1.976, ilustrando o poder corrosivo desses encargos.

Impactos nas famílias e na economia

Famílias de baixa renda sofrem mais, comprometendo até 29,4% da renda com dívidas, recorde histórico desde 2011. A informalidade laboral agrava o quadro, reduzindo a previsibilidade de receitas e forçando o uso de crédito caro para emergências.

O comprometimento recorde pressiona o consumo, desaquecendo comércio e serviços. Economistas alertam que, sem formalização maior e queda sustentada da Selic, o endividamento pode perpetuar vulnerabilidades, limitando investimentos e crescimento.

Em janeiro, a taxa média de juros para famílias e empresas já era de 32,8% ao ano, quase o dobro da Selic, com o cartão parcelado em 194,9% após 30 dias de rotativo.

Alternativas para escapar do ciclo

Para mitigar os danos, especialistas recomendam priorizar o pagamento integral da fatura do cartão, evitando o rotativo a todo custo. Parcelamentos após 30 dias oferecem taxas menores, mas ainda elevadas em torno de 180-195% ao ano.

Outras saídas incluem:

  • Renegociação de dívidas com bancos, que oferecem descontos para quitação à vista ou em condições melhores.
  • Migração para consignado ou empréstimos com garantia, com taxas abaixo de 30% ao ano.
  • Planejamento orçamentário rigoroso, priorizando despesas essenciais e cortando impulsos.
  • Uso de apps de controle financeiro para monitorar gastos e alertas de vencimentos.
  • Busca por feirões de renegociação promovidos pelo Banco Central ou Serasa.

Essas medidas podem interromper o ciclo de endividamento, preservando a saúde financeira em um ano de juros ainda elevados.

Perspectivas para 2026

Com a Selic em trajetória descendente para 12,25% até o fim do ano, segundo projeções do mercado, espera-se alívio gradual nas taxas de crédito. Contudo, o Copom mantém postura cautelosa diante de riscos inflacionários e externos.

Famílias endividadas representam risco sistêmico, podendo frear a recuperação econômica. O Banco Central monitora de perto, com estatísticas mensais guiando ajustes na política monetária.

Em resumo, fevereiro marca um alerta: o juros do cartão de crédito não é salvação emergencial, mas armadilha profunda. Educação financeira e disciplina são chaves para navegar esse mar de endividamento recorde.

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