Estudo da UFSCar comprova que bebês em situação de pobreza apresentam menor repertório motor aos 6 meses.
(Imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Uma pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) trouxe evidências preocupantes sobre os efeitos da pobreza infantil no desenvolvimento dos bebês. O estudo acompanhou 88 crianças entre três e oito meses de idade no interior de São Paulo e identificou que, já aos seis meses, aqueles em lares pobres exibem atrasos no desenvolvimento motor.
Os bebês em vulnerabilidade socioeconômica alcançam marcos como agarrar objetos, virar o corpo e sentar mais tarde que os pares em condições melhores. Além do atraso temporal, eles demonstram menor variedade de movimentos, repetindo estratégias simples para tarefas motoras.
A autora principal, Caroline Fioroni Ribeiro da Silva, fisioterapeuta e doutoranda da UFSCar, explica que esses pequenos têm um repertório reduzido de ações motoras. O trabalho, financiado pela Fapesp e publicado na revista Acta Psychologica em fevereiro de 2026, reforça a necessidade de intervenções precoces.
Metodologia detalha impactos precoces
O estudo envolveu 334 avaliações mensais em 88 bebês, sendo 50 deles oriundos de famílias em pobreza infantil. As análises revelaram diferenças claras a partir dos seis meses, com os bebês pobres limitados em diversidade motora, como na forma de pegar brinquedos ou se posicionar.
Fatores ambientais agravam o quadro: em casas pobres, as crianças passam mais tempo em carrinhos ou contidas, com menos espaço para explorar. Lares com múltiplos adultos, mas caóticos, também reduzem oportunidades seguras de movimento.
A escolaridade materna e a presença de ambos os pais se mostraram protetores. Responsáveis solos, comuns na pobreza infantil, enfrentam sobrecarga e dedicam menos tempo a brincadeiras estimulantes.
- 88 bebês avaliados mensalmente de 3 a 8 meses.
- 50 em situação de vulnerabilidade socioeconômica.
- Atrasos observados em agarrar, virar e sentar.
- Menor diversidade motora confirmada em 334 observações.
Estímulos simples revertem atrasos
A boa notícia é a plasticidade cerebral na primeira infância. Aos oito meses, os bebês avaliados já não apresentavam déficits significativos, graças a orientações passadas às mães durante visitas domiciliares.
Atividades como tummy time, colocar o bebê de bruços em superfície segura, conversa, canto e uso de brinquedos improvisados, como papel amassado ou chocalhos de garrafa pet com grãos, promoveram melhoras rápidas. Essas práticas fortalecem músculos de cabeça, pescoço e braços, preparando para engatinhar e andar.
Mães adolescentes, maioria nas famílias pobres, beneficiaram-se especialmente da orientação. Caroline enfatiza que não são necessários brinquedos caros, apenas interação e supervisão no chão, o espaço mais seguro para exploração.
Riscos de longo prazo da pobreza infantil
Sem intervenções, atrasos motores iniciais podem evoluir para problemas escolares, como déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e transtornos de coordenação. A literatura associa falta de estímulos na infância a aprendizado reduzido e menor desempenho cognitivo.
No Brasil, a pobreza infantil afeta milhões. Dados do Unicef de 2025 indicam 28,8 milhões de crianças e adolescentes em pobreza multidimensional em 2023, ou 55,9% da população de 0 a 17 anos, queda de 34,3 milhões em 2017, mas ainda alarmante. Globalmente, 400 milhões de crianças vivem em privações severas de saúde e desenvolvimento.
Estudos complementares, como o da PUCRS, mostram 44,7% das crianças de 0 a 6 anos abaixo da linha de pobreza em anos recentes, com desvantagens em escolaridade familiar e famílias monoparentais. Crianças negras enfrentam taxas mais altas, ampliando desigualdades.
- Possíveis sequelas: TDAH, transtornos motores e piora escolar.
- 28,8 milhões de jovens brasileiros em pobreza multidimensional (Unicef, 2023).
- 400 milhões de crianças pobres no mundo (relatório Unicef 2025).
- Desigualdades raciais e regionais persistem no Brasil.
Medidas públicas para mitigar efeitos
Caroline recomenda visitas regulares de profissionais de saúde, como agentes comunitários e fisioterapeutas, para orientar famílias. Programas como Bolsa Família ajudaram a reduzir a pobreza infantil, tirando milhões da privação de renda, mas ações locais são cruciais.
O estudo da UFSCar reforça políticas de primeira infância, como o Criança Feliz, ampliando estímulos precoces. Com o cérebro em fase de neuroplasticidade, como uma esponja absorvendo o ambiente, intervenções agora previnem custos futuros em saúde e educação.
Especialistas alertam que erradicar a pobreza infantil exige esforços conjuntos: transferências de renda, acesso a saneamento (38% ainda sem em 2023) e combate à insegurança alimentar. No Brasil, avanços pós-pandemia mostram viabilidade, mas monitoramento contínuo é essencial.
Essa pesquisa não só ilumina um mecanismo precoce da desigualdade, mas oferece ferramentas acessíveis para reverter danos. Famílias, profissionais e governos têm agora dados concretos para atuar, garantindo que todos os bebês alcancem seu potencial motor e cognitivo pleno.