Agentes de segurança pública das 27 capitais brasileiras e do interior passam por treinamento simultâneo contra a violência de gênero.
(Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil)
O combate à violência de gênero no Brasil ganha um novo marco de mobilização nacional. Em uma ação coordenada e sem precedentes, mais de 7,5 mil agentes de segurança pública de todas as 27 capitais brasileiras e de 81 municípios do interior passam por um treinamento simultâneo intensivo. O principal objetivo do esforço é uniformizar o atendimento policial e humanizar o acolhimento a mulheres vítimas de agressões.
Batizada de "Dia C de Capacitação", a iniciativa visa corrigir um dos gargalos históricos da rede de proteção: a recepção inicial inadequada. O despreparo no atendimento inicial muitas vezes desencoraja denúncias e aprofunda o trauma das vítimas. Sob a liderança da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), o treinamento visa estabelecer uma perspectiva de gênero prática no cotidiano das corporações.
A importância do primeiro contato com as forças policiais
O treinamento mobiliza um público amplo, englobando policiais civis, militares, penais, integrantes do Corpo de Bombeiros, guardas municipais e peritos oficiais. Essa diversidade reflete a complexidade do ciclo da violência doméstica e familiar, que exige abordagens integradas em diferentes frentes de atuação.
De acordo com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, focar a qualificação em quem atua no patrulhamento diário e nos plantões é uma decisão estratégica. Afinal, esses profissionais representam o primeiro contato real da mulher com o Estado no momento mais delicado de sua busca por proteção.
A diretora de Ensino e Pesquisa da Senasp, Michele Gonçalves dos Ramos, ressalta que o evento expande iniciativas anteriores. Nos últimos três anos, aproximadamente dois mil profissionais foram treinados pelo governo federal. Agora, a meta é nacionalizar o padrão de qualidade, levando o conhecimento técnico de forma simultânea e em larga escala.
Desbloqueio de verbas e criação de padrão unificado
A mobilização das forças policiais é acompanhada de mudanças estruturais na gestão pública. Portarias recentes assinadas em conjunto pelo Ministério da Justiça e pelo Ministério das Mulheres propõem solucionar entraves burocráticos que atrasavam o combate à violência.
A primeira medida simplifica os processos de análise e aprovação dos planos estaduais e distrital de segurança pública. Esse novo fluxo garante que os recursos arrecadados pelo Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) sejam liberados com maior velocidade aos governos estaduais que cumprirem as metas de proteção de gênero.
A segunda determinação estabelece um grupo de trabalho interministerial dedicado a formular o inédito Protocolo Nacional de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual. A finalidade do documento é padronizar a conduta das delegacias de Polícia Civil brasileiras, fortalecendo a integração imediata com serviços de saúde e assistência social, mitigando os riscos de reiteração de traumas.
Redução tímida nos índices de feminicídio exige continuidade
Durante o lançamento do programa de treinamento, os ministérios apresentaram o dossiê científico "Mulheres e Meninas Seguras, Evidências para o Enfrentamento da Violência de Gênero". O material reúne 14 estudos de especialistas que ajudam a desenhar as diretrizes de combate à criminalidade.
Para a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, o conhecimento empírico precisa dialogar de forma contínua com a rotina operacional das delegacias. O país registrou queda de 3,2% nos feminicídios no primeiro semestre do ano, passando de 876 ocorrências em 2025 para 848 registros em 2026. A oscilação positiva, contudo, é vista com cautela pelo governo, que defende tolerância zero e monitoramento ininterrupto de ameaças.
A consolidação desse ecossistema integrado sinaliza que o acolhimento especializado de mulheres em situação de vulnerabilidade avança de compromisso local para uma política pública estruturada de segurança.