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Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa desfila no Rio para romper estigmas de trabalhadoras do sexo

10 fev 2026 - 10h19 Joice Gomes   atualizado às 10h24
Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa desfila no Rio para romper estigmas de trabalhadoras do sexo Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa promove carnaval inclusivo no Rio de Janeiro, rompendo estigmas contra trabalhadoras do sexo e celebrando a potência cultural da Praça da Bandeira. (Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa realizou seu desfile na noite de sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026, pelas ruas da Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro. Apesar da chuva, o evento reuniu foliões em uma celebração que homenageia a memória e a resistência cultural da região, historicamente marcada pela presença de pontos de prostituição. No carro de som, o locutor incentivava aplausos às trabalhadoras do sexo, reforçando mensagens de respeito e valorização.

Muitas profissionais observaram o cortejo das calçadas ou dos bares, preferindo não se misturar ao bloco por receio de exposição midiática. Estrela, de 58 anos, exemplifica essa cautela: ela dançou à distância para evitar chamar atenção, demonstrando o equilíbrio entre apoio à iniciativa e preservação da privacidade. O evento, criado em 2018 por moradores locais, visa transformar a percepção negativa sobre a área.

Origens do bloco e desafios de integração

Cleide Almeida, presidente do Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa e assistente social, explica que a integração plena com as trabalhadoras do sexo enfrenta barreiras como medo de filmagens e falta de apoio financeiro para projetos sociais. Felipe Vasconcellos, líder da banda Enxota que eu vou, destaca questões socioeconômicas: as profissionais trabalham até tarde, cuidam de filhos e enfrentam rotinas exaustivas, o que limita a participação em ensaios ou oficinas de percussão.

O enredo deste ano, “O Doce e Amargo Beijo da Noite”, homenageia figuras como Gabriela Leite e Lourdes Barreto, líderes históricas na luta por direitos das trabalhadoras do sexo. A concentração ocorreu às 17h na Rua Sotero dos Reis, 66, com saída às 20h, reunindo samba-enredo composto por Gabriel Monteiro, Marcelino Tadeu de Assis, Maurício Martins Soares e Carlinho Biju. Apesar dos obstáculos, o bloco persiste em ocupar o espaço público como forma de celebração coletiva.

  • Concentração às 17h e desfile às 20h na Rua Sotero dos Reis, 66, Praça da Bandeira.
  • Enredo celebra memória, resistência e potência cultural da Zona do Mangue e Vila Mimosa.
  • Homenagens a Gabriela Leite e Lourdes Barreto, ícones da luta por direitos.
  • Apoio necessário para infraestrutura, segurança e ações sociais complementares.

História da Vila Mimosa e transformação urbana

A Vila Mimosa tem raízes na antiga Zona do Mangue, que no fim do século XIX e início do XX ocupava o entorno do Canal do Mangue, próximo à atual Avenida Presidente Vargas. Intervenções urbanas no centro da cidade deslocaram bares e casas noturnas para áreas periféricas, como a Praça da Bandeira, com seus galpões industriais. A consolidação da Vila Mimosa ocorreu na década de 1990, após remoções e negociações com a prefeitura, que indenizou a associação de moradores.

Hoje, a região abriga dezenas de boates em condições precárias, mas é também um polo de trabalho para centenas de profissionais. Movimentos sociais e associações lutam por investimentos públicos em serviços básicos, saúde e infraestrutura urbana, reconhecendo a complexidade social do território. O Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa surge nesse contexto, como ferramenta para humanizar a narrativa e promover o diálogo comunitário.

Laísa, de 21 anos e há cinco anos na Vila Mimosa, vê o bloco como uma alegria que valoriza o local de trabalho e combate o preconceito. Daniela Tarta, administradora que participou pela primeira vez, reforça a importância de aproximar a população para quebrar estereótipos, descrevendo o espaço como democrático e acolhedor.

Impactos sociais e perspectivas futuras

Estrela, técnica de enfermagem que complementa renda na região após perder R$ 100 mil em um golpe, ilustra a diversidade das profissionais: mães, filhas e provedoras familiares que não devem explicações à sociedade. O bloco derruba tabus ao expor essas histórias reais, incentivando visitas para compreensão genuína da vida local. Cleide Almeida enfatiza: todo carioca deveria conhecer a região para julgar menos e respeitar mais.

No cenário do carnaval de rua do Rio em 2026, com 803 blocos inscritos e 465 autorizados pela Riotur, iniciativas como essa se destacam por sua raiz comunitária e temática social. O Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa não só anima as ruas, mas impulsiona debates sobre direitos trabalhistas, inclusão e políticas públicas para territórios marginalizados. Futuramente, com mais apoios, espera-se maior protagonismo das trabalhadoras, ampliando o impacto cultural e transformador do evento.

A edição de 2026 reforça o potencial do carnaval como agente de mudança, unindo folia, memória histórica e luta por dignidade. Organizações como a AMOCAVIM, com parcerias em saúde como testagem rápida e vacinação, complementam a programação, promovendo bem-estar além da festa. Essa abordagem integrada pode inspirar outros blocos a abraçar temas locais profundos.

  • Raízes na Zona do Mangue, transferida para Praça da Bandeira na década de 1990.
  • Lutas por serviços públicos, saúde e melhorias urbanas na região.
  • Carnaval 2026 com recorde de 803 blocos no Rio, destacando iniciativas comunitárias.
  • Potencial para maior inclusão com apoios financeiros e sociais.
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