O Tesouro Nacional captou US$ 4,5 bilhões na primeira emissão externa de 2026, com o Global 2036 batendo recorde histórico.
(Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
O Brasil capta US$ 4,5 bilhões em títulos soberanos no mercado internacional marcou um início promissor para 2026. Realizada na segunda-feira, 9 de fevereiro, a operação nos Estados Unidos incluiu a emissão inédita do Global 2036, de dez anos, e a reabertura do Global 2056, de 30 anos. Esse volume representa o maior para papéis de dez anos desde o início das emissões externas pelo governo brasileiro.
Os recursos, liquidados em 19 de fevereiro, serão direcionados às reservas internacionais, fortalecendo o escudo contra volatilidades globais. A estratégia reflete o planejamento do Tesouro Nacional para diversificar fontes de financiamento e alongar prazos da dívida externa, em um contexto de juros elevados nos mercados desenvolvidos.
Características técnicas dos títulos emitidos
O Global 2036, com vencimento em 22 de maio de 2036, angariou US$ 3,5 bilhões – recorde absoluto para emissões brasileiras de dez anos no exterior. O título oferece taxa de juros de 6,4% ao ano, cupom semestral de 6,25% pago em maio e novembro, e spread de 220 pontos-base sobre os Treasuries americanos de mesma maturidade.
Comparando com a emissão de novembro de 2025, houve leve aumento: juros de 6,2% para 6,4% e spread de 210,9 para 220 pontos-base. Apesar da alta, esses níveis permanecem competitivos, inferiores aos de outros emergentes como México (250 pb) e Turquia (400 pb), posicionando o Brasil como opção atraente.
O Global 2056 captou US$ 1 bilhão adicional, elevando seu estoque total para US$ 3,5 bilhões, com vencimento em 12 de janeiro de 2056. Juros em 7,3% ao ano, cupom de 7,25% e spread recorde de 245 pontos-base – o menor desde julho de 2014 para papéis de 30 anos – destacam a percepção de baixo risco de longo prazo.
Esses spreads medem o prêmio de risco sobre benchmarks americanos: quanto menor, maior a confiança. A operação foi coordenada por bancos globais como HSBC, JP Morgan, Santander e Sumitomo, que estruturaram o livro de ordens com 466 investidores de 20 países.
Demanda robusta impulsiona sucesso da operação
A emissão registrou demanda 2,7 vezes superior ao ofertado, com livro de ordens somando US$ 12 bilhões. Europa e América do Norte absorveram 90% da alocação, liderados por fundos de pensão, gestoras de ativos e bancos centrais. Fundos soberanos asiáticos e americanos figuraram entre os maiores compradores.
- US$ 3,5 bilhões no Global 2036, maior volume histórico para dez anos.
- Livro de US$ 12 bilhões, com 466 ordens de investidores institucionais.
- 90% alocado para Europa/América do Norte; Ásia com 8%.
- Spread de 245 pb no Global 2056, menor desde 2014 para 30 anos.
O Tesouro Nacional enfatizou que "alta demanda, alto volume e spreads baixos evidenciam a confiança na robustez da dívida soberana". Esse apetite reflete a melhora no perfil da dívida brasileira: relação dívida/PIB estável em 78%, superávit primário projetado de 0,5% do PIB e reservas acima de US$ 350 bilhões.
Contexto macroeconômico favorece emissões externas
A captação ocorre em cenário de otimismo seletivo com emergentes. Nos EUA, a política monetária sob Trump mantém juros altos (Fed Funds em 4,5-4,75%), atraindo capital para ativos de risco moderado. No Brasil, a inflação desacelera para 3,97% em 2026 (Focus), com Selic caindo a 10,5% no fim do ano.
O real cotado a R$ 5,22/dólar reflete equilíbrio, apoiado por entrada de investimentos estrangeiros diretos (US$ 80 bi projetados). A dívida externa pública, em 15% do PIB, é baixa comparada a pares (Indonésia 30%, África do Sul 25%), permitindo emissões agressivas sem alertas de rating agencies.
O planejamento do Tesouro visa elevar títulos cambiais de 3,8% para 7% da dívida total até 2030, emitindo em dólar, euro e iuan. Isso mitiga risco de refinanciamento em real e aproveita yields elevados enquanto duram.
Impactos imediatos nas reservas e câmbio
Os US$ 4,5 bilhões elevam reservas em 1,3%, ampliando colchão para US$ 355 bilhões. Reservas altas estabilizam o câmbio, reduzem custo de swaps cambiais (R$ 1 tri em estoque) e sinalizam solidez a credores privados.
Praticamente, isso protege contra choques: em 2022, reservas caíram 10% com fuga de capitais; hoje, o buffer evita depreciações bruscas. Para exportadores, dólar estável preserva competitividade; para importadores e famílias, freia inflação importada.
- Reservas sobem 1,3%, para acima de US$ 355 bilhões em fevereiro.
- Dólar estabilizado em R$ 5,20-5,25, reduzindo volatilidade.
- Menor custo de rolagem de dívida externa (US$ 50 bi/ano).
- Suporte a ratings BB- (S&P/Fitch), com perspectiva estável.
No Tesouro, a operação alonga maturidade média da dívida externa para 12 anos, evitando concentração de vencimentos. Global 2036 e 2056 distribuem pagamentos até 2056, alinhados a crescimento do PIB (2,5% médio projetado).
Perspectivas e desafios para emissões futuras
O sucesso abre porta para mais captações: Tesouro planeja US$ 15-20 bilhões em 2026, incluindo eurobonds e green bonds. Próximas emissões testarão apetite em março, pós-relatório fiscal do governo.
Desafios incluem eleições americanas (2026 midterms), possível aperto do Fed e tensões comerciais EUA-China. Internamente, aprovação de reformas fiscais e controle de gastos primários sustentam spreads baixos.
Analistas projetam spreads estáveis em 210-230 pb para dez anos se PIB crescer 2,3% e dívida/PIB cair a 76%. Falhas na disciplina fiscal poderiam elevar custos em 50 pb, encarecendo US$ 1 bi anuais em juros.
Para o cidadão, US$ 4,5 bilhões traduzem em economia mais resiliente: menos risco de crises cambiais, juros internos menores e espaço para investimentos públicos. O mercado internacional valida a gestão, mas exige continuidade em reformas.
Em um mundo volátil, essa captação reafirma o Brasil como destino confiável para capital paciente. Com reservas robustas e dívida gerenciável, o país ganha fôlego para navegar incertezas globais e impulsionar crescimento sustentável.