Lula declarou, em tom de brincadeira, que, se Trump conhecesse o que significa a “sanguinidade de Lampião num presidente”, não ficaria provocando o Brasil.
(Imagem: gerado por IA)
Em discurso no Instituto Butantan, em São Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu à figura de Virgulino Ferreira da Silva, o cangaceiro Lampião, para responder indiretamente às provocações diplomáticas e comerciais do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Lula declarou, em tom de brincadeira, que, se Trump conhecesse o que significa a “sanguinidade de Lampião num presidente”, não ficaria provocando o Brasil, vinculando a imagem do cangaceiro à sua própria postura diante de ameaças externas de maior poderio militar e econômico.
Contexto da ironia sobre Lampião
A referência a Lampião foi feita em uma cerimônia de reforço a investimentos públicos em ciência e saúde, momento em que Lula aproveitou também para comentar o cenário internacional e voltar sua retórica para Washington enviando um recado explícito sem, no entanto, declarar um conflito aberto.
Ao desenhar esse paralelo com o cangaceiro nordestino, Lula alinha simbolicamente sua figura à de um personagem historicamente associado, por setores da esquerda brasileira, à luta contra os “fortes” e à defesa das populações pobres, mesmo que historiadores também ressaltem que o banditismo cangaceiro incluía pilhagem de famílias modestas.
Na sequência, o presidente deixou claro que não busca briga com Trump, mas ressaltou que, se provocado, não se recusaria a trinchar, um trocadilho com a expressão “trinchar” ligado à ideia de Lampião não recuar diante do adversário mais bem armado.
- Uso estratégico de humor e simbolismo popular para responder a ameaças da maior potência do planeta.
- Conexão entre a imagem de Lampião e uma política externa mais assertiva, porém sem aposta em confronto direto.
- Sinalização interna de que o governo desistiu de manter reação diplomática excessivamente moderada quando se sente desafiado.
Desentendimento comercial com Trump
A provocação de Trump está ligada ao chamado “tarifaço” imposto pelo governo americano sobre exportações brasileiras, que chegou a prever taxas adicionais de até 50% sobre produtos do país, em aberto desacordo com a lógica da Organização Mundial do Comércio e com precedentes de relações bilaterais.
No final de 2025, Trump encaminhou uma carta pública a Lula anunciando a medida sob o argumento de “relação desequilibrada”, ameaçando ainda piora das taxas em caso de retaliação brasileira, justificando a iniciativa também com referência política ao ex-presidente Jair Bolsonaro e ao seu julgamento na Justiça brasileira.
Em resposta, Lula afirmou que não aceitará ser tutelado e acionou a Lei da Reciprocidade Econômica, antecipando medidas contrárias caso os EUA insistam em aumentos unilaterais de tarifas, o que afeta com destaque setores como a agropecuária, indústria de base e a indústria de transformação.
- Tarifas anunciadas contra o Brasil elevaram curto‑prazo o custo de produtos agrícolas e manufaturados enviados aos EUA.
- Risco de cadeias de suprimento globais se reorganizarem para compradores alternativos, alterando desenho de exportações.
- Pressão sobre segmentos mais expostos, como grãos, carne, sucos cítricos e auto-partes, obrigando o governo a buscar compensações.
Mudança de tom da política externa brasileira
Lula abandona, de forma gradual, o que ele mesmo convencionou chamar de fase “Lulinha paz e amor”, marcada por prioridade em consenso e diplomacia discreta, para adotar uma retórica mais contundente, ainda que sem aparente desejo de guerra comercial ou militar aberta.
O uso de termos como “briga de narrativa” mostra que o governo entende o campo da disputa hoje como encenação de força simbólica e diplomática, em vez de enfrentamento puramente militar ou econômico, o que aproxima a fala sobre a “sanguinidade de Lampião” a uma metáfora de resistência política.
O petista também aponta que o Brasil quer reforçar na cena internacional a defesa do multilateralismo, da forma de cooperação que mitigou guerras e protegeu, em parte, países menores da arbitrariedade de potências dominantes.
- Foco em organizações multilaterais com vista a proteger o espaço de autonomia do país.
- Confronto de discursos com Trump sob discurso de “não querer briga, mas saber revidar”.
- Risco de polarização que, se não for dosada, pode prejudicar o ambiente de negócios e aumentar incertezas para investidores.
Repercussão política interna
A fala sobre Lampião foi interpretada por grande parte do espectro político como um sinal de endurecimento retórico de Lula, algo esperado em ano eleitoral, em que a narrativa de “presidente que enfrenta potências” pode funcionar tanto como mobilização ideológica quanto como corte de crítica de fragilidade externa.
Algumas alas de centro e de direita questionam o valor simbólico do emoji de Lampião diante de economias que dependem de integração globalizada, preocupadas com uma escalada de retórica que possa justificar, em Washington, represálias mais duras contra setores vitais da economia brasileira.
Por outro lado, setores da base social do governo veem na comparação com o cangaceiro uma forma de retomar uma retórica mais regional e pop‑popular, reforçando a relação entre o presidente e público de origem nordestina e de baixa renda, tradicionalmente sensível à ideia de resistência contra elites políticas.
O que pode acontecer a seguir
No plano diplomático, o uso de termos ligados à “sanguinidade de Lampião” reforça expectativa de que Lula continuará a equilibrar desafio simbólico a Trump com a busca por soluções negociadas em organismos comerciais e diplomáticos, evitando tanto a submissão completa quanto o rompimento definitivo.
No plano econômico, o próximo movimento do governo brasileiro passa por aprofundar acordos comerciais regionais e com parceiros alternativos, reduzindo dependência unilateral dos EUA, ao mesmo tempo, em que negocia medidas compensatórias para quem sofre com a queda de competitividade nas exportações afetadas pelo “tarifaço”.
No plano político‑eleitoral, a figura de Lampião pode ser retomada como bordão de campanha em regiões do Nordeste e em discursos alinhados à defesa de soberania nacional, amplificando a narrativa de um Brasil que, mesmo diante de superpotências, não se dobra diante de ameaças.