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Saúde

Brasil registra menor mortalidade infantil em 34 anos, mas ONU alerta para desaceleração na queda dos índices

18 mar 2026 - 08h26 Joice Gomes   atualizado às 08h29
Brasil registra menor mortalidade infantil em 34 anos, mas ONU alerta para desaceleração na queda dos índices Brasil atinge menor taxa de mortalidade infantil em 34 anos, com queda histórica desde 1990. (Imagem: Marcello Casal/Agência Brasil)

O Brasil chegou em 2024 ao menor patamar de mortalidade infantil das últimas três décadas, segundo o relatório Níveis e Tendências da Mortalidade Infantil, divulgado pelas Nações Unidas em 17 de março de 2026. O levantamento indica que o país atingiu as menores taxas de mortalidade neonatal e de mortes de crianças menores de cinco anos em 34 anos, consolidando uma trajetória de queda iniciada nos anos 1990.

Os dados mostram uma transformação profunda no cuidado à infância. Em 1990, 25 recém-nascidos morriam a cada mil nascimentos antes de completar 28 dias de vida; em 2024, esse número caiu para sete por mil. No mesmo intervalo, a mortalidade antes dos cinco anos recuou de 63 para 14,2 óbitos por mil nascidos vivos, um avanço que coloca o país em seu melhor resultado histórico da série destacada pelo relatório.

O resultado é associado a um conjunto de políticas públicas adotadas ao longo de décadas, especialmente na atenção primária e no cuidado materno-infantil. Entre as iniciativas destacadas estão o Programa Saúde da Família, o Programa de Agentes Comunitários de Saúde, a Política Nacional de Atenção Básica e a ampliação da rede pública de saúde, medidas que ajudaram a reduzir mortes evitáveis de mães, bebês e crianças.

Queda histórica, mas com ritmo menor

Embora os indicadores mostrem avanço expressivo, o relatório também chama atenção para uma desaceleração na velocidade de redução das mortes infantis no Brasil. Entre 2000 e 2009, a mortalidade neonatal caiu, em média, 4,9% ao ano; entre 2010 e 2024, a redução anual passou para 3,16% .

Esse movimento não ocorre de forma isolada. As Nações Unidas identificaram o mesmo comportamento no cenário global, onde as mortes de crianças menores de cinco anos caíram mais da metade desde 2000, mas o ritmo de queda perdeu força a partir de 2015, com desaceleração superior a 60% . Isso significa que, apesar do progresso acumulado, o desafio agora é manter a tendência de melhora e evitar estagnação em regiões ou grupos mais vulneráveis.

No caso brasileiro, a desaceleração acende um alerta porque a mortalidade infantil costuma refletir de maneira direta a qualidade do acesso à saúde, à vacinação, à nutrição adequada, ao pré-natal e às condições de saneamento. Quando a curva melhora mais devagar, cresce a pressão para reforçar políticas públicas capazes de alcançar populações ainda expostas a riscos maiores de morte evitável.

O que explica o avanço

A melhora dos indicadores ao longo de 34 anos está ligada à expansão da atenção básica, à presença de profissionais no território e à adoção de ações de prevenção consideradas custo-efetivas. O relatório destaca que intervenções de baixo custo, como vacinação, tratamento da desnutrição e acompanhamento qualificado durante a gestação, o parto e o pós-parto, oferecem retorno elevado em saúde pública e impacto duradouro no desenvolvimento social.

Esse tipo de política ajuda a reduzir complicações no início da vida, período em que se concentram muitos dos óbitos evitáveis. Também fortalece o diagnóstico precoce, amplia a orientação às famílias e melhora a resposta do sistema de saúde em áreas onde a vulnerabilidade social pesa mais sobre mães e crianças.

Outro ponto relevante é o efeito acumulado dessas ações. A redução da mortalidade infantil não costuma resultar de uma medida isolada, mas de uma combinação de cobertura vacinal, acesso regular à unidade de saúde, incentivo à amamentação, monitoramento nutricional e assistência adequada no nascimento. A persistência dessa rede de proteção é vista como decisiva para que a melhora continue nos próximos anos.

Desigualdades e novos desafios

O mesmo relatório amplia o olhar para além da primeira infância e mostra que a proteção de crianças e adolescentes continua sendo um desafio importante . Em 2024, cerca de 2,1 milhões de crianças, adolescentes e jovens de 5 a 24 anos morreram no mundo, segundo o documento.

No Brasil, os dados chamam atenção para o peso da violência na adolescência masculina. Entre meninos de 15 a 19 anos, a violência respondeu por 49% das mortes em 2024, enquanto as doenças não transmissíveis representaram 18% e os acidentes de trânsito, 14%. Entre meninas da mesma faixa etária, as doenças não transmissíveis lideraram as causas de morte, com 37%, seguidas por doenças transmissíveis, com 17%, violência, com 12%, e suicídio, com 10%.

Esses números mostram que a agenda da sobrevivência infantil e juvenil não termina nos primeiros anos de vida. O país avançou fortemente na redução de mortes entre bebês e crianças pequenas, mas ainda enfrenta obstáculos estruturais relacionados à violência, ao cuidado continuado na adolescência e à prevenção de doenças crônicas e transtornos que afetam essa faixa etária.

Impacto social e econômico

As Nações Unidas defendem que investir em saúde infantil está entre as medidas com melhor relação entre custo e benefício para o desenvolvimento. De acordo com o relatório, cada dólar aplicado na sobrevivência infantil pode gerar até 20 dólares em benefícios sociais e econômicos, ao aumentar a produtividade, fortalecer economias e reduzir gastos públicos futuros.

Na prática, isso significa que a redução da mortalidade infantil vai além do campo sanitário. O indicador também influencia escolarização, renda futura, estabilidade familiar e capacidade de um país de romper ciclos persistentes de pobreza e exclusão.

Por isso, o novo resultado brasileiro tem peso simbólico e prático. Ele confirma um avanço histórico na proteção à infância, mas também reforça a necessidade de preservar e ampliar políticas públicas que sustentaram essa melhora, especialmente em um momento em que a queda dos indicadores ocorre de forma mais lenta.

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