Brasil atinge menor taxa de mortalidade infantil em 34 anos, com queda histórica desde 1990.
(Imagem: Marcello Casal/Agência Brasil)
O Brasil chegou em 2024 ao menor patamar de mortalidade infantil das últimas três décadas, segundo o relatório Níveis e Tendências da Mortalidade Infantil, divulgado pelas Nações Unidas em 17 de março de 2026. O levantamento indica que o país atingiu as menores taxas de mortalidade neonatal e de mortes de crianças menores de cinco anos em 34 anos, consolidando uma trajetória de queda iniciada nos anos 1990.
Os dados mostram uma transformação profunda no cuidado à infância. Em 1990, 25 recém-nascidos morriam a cada mil nascimentos antes de completar 28 dias de vida; em 2024, esse número caiu para sete por mil. No mesmo intervalo, a mortalidade antes dos cinco anos recuou de 63 para 14,2 óbitos por mil nascidos vivos, um avanço que coloca o país em seu melhor resultado histórico da série destacada pelo relatório.
O resultado é associado a um conjunto de políticas públicas adotadas ao longo de décadas, especialmente na atenção primária e no cuidado materno-infantil. Entre as iniciativas destacadas estão o Programa Saúde da Família, o Programa de Agentes Comunitários de Saúde, a Política Nacional de Atenção Básica e a ampliação da rede pública de saúde, medidas que ajudaram a reduzir mortes evitáveis de mães, bebês e crianças.
Queda histórica, mas com ritmo menor
Embora os indicadores mostrem avanço expressivo, o relatório também chama atenção para uma desaceleração na velocidade de redução das mortes infantis no Brasil. Entre 2000 e 2009, a mortalidade neonatal caiu, em média, 4,9% ao ano; entre 2010 e 2024, a redução anual passou para 3,16% .
Esse movimento não ocorre de forma isolada. As Nações Unidas identificaram o mesmo comportamento no cenário global, onde as mortes de crianças menores de cinco anos caíram mais da metade desde 2000, mas o ritmo de queda perdeu força a partir de 2015, com desaceleração superior a 60% . Isso significa que, apesar do progresso acumulado, o desafio agora é manter a tendência de melhora e evitar estagnação em regiões ou grupos mais vulneráveis.
No caso brasileiro, a desaceleração acende um alerta porque a mortalidade infantil costuma refletir de maneira direta a qualidade do acesso à saúde, à vacinação, à nutrição adequada, ao pré-natal e às condições de saneamento. Quando a curva melhora mais devagar, cresce a pressão para reforçar políticas públicas capazes de alcançar populações ainda expostas a riscos maiores de morte evitável.
O que explica o avanço
A melhora dos indicadores ao longo de 34 anos está ligada à expansão da atenção básica, à presença de profissionais no território e à adoção de ações de prevenção consideradas custo-efetivas. O relatório destaca que intervenções de baixo custo, como vacinação, tratamento da desnutrição e acompanhamento qualificado durante a gestação, o parto e o pós-parto, oferecem retorno elevado em saúde pública e impacto duradouro no desenvolvimento social.
Esse tipo de política ajuda a reduzir complicações no início da vida, período em que se concentram muitos dos óbitos evitáveis. Também fortalece o diagnóstico precoce, amplia a orientação às famílias e melhora a resposta do sistema de saúde em áreas onde a vulnerabilidade social pesa mais sobre mães e crianças.
Outro ponto relevante é o efeito acumulado dessas ações. A redução da mortalidade infantil não costuma resultar de uma medida isolada, mas de uma combinação de cobertura vacinal, acesso regular à unidade de saúde, incentivo à amamentação, monitoramento nutricional e assistência adequada no nascimento. A persistência dessa rede de proteção é vista como decisiva para que a melhora continue nos próximos anos.
Desigualdades e novos desafios
O mesmo relatório amplia o olhar para além da primeira infância e mostra que a proteção de crianças e adolescentes continua sendo um desafio importante . Em 2024, cerca de 2,1 milhões de crianças, adolescentes e jovens de 5 a 24 anos morreram no mundo, segundo o documento.
No Brasil, os dados chamam atenção para o peso da violência na adolescência masculina. Entre meninos de 15 a 19 anos, a violência respondeu por 49% das mortes em 2024, enquanto as doenças não transmissíveis representaram 18% e os acidentes de trânsito, 14%. Entre meninas da mesma faixa etária, as doenças não transmissíveis lideraram as causas de morte, com 37%, seguidas por doenças transmissíveis, com 17%, violência, com 12%, e suicídio, com 10%.
Esses números mostram que a agenda da sobrevivência infantil e juvenil não termina nos primeiros anos de vida. O país avançou fortemente na redução de mortes entre bebês e crianças pequenas, mas ainda enfrenta obstáculos estruturais relacionados à violência, ao cuidado continuado na adolescência e à prevenção de doenças crônicas e transtornos que afetam essa faixa etária.
Impacto social e econômico
As Nações Unidas defendem que investir em saúde infantil está entre as medidas com melhor relação entre custo e benefício para o desenvolvimento. De acordo com o relatório, cada dólar aplicado na sobrevivência infantil pode gerar até 20 dólares em benefícios sociais e econômicos, ao aumentar a produtividade, fortalecer economias e reduzir gastos públicos futuros.
Na prática, isso significa que a redução da mortalidade infantil vai além do campo sanitário. O indicador também influencia escolarização, renda futura, estabilidade familiar e capacidade de um país de romper ciclos persistentes de pobreza e exclusão.
Por isso, o novo resultado brasileiro tem peso simbólico e prático. Ele confirma um avanço histórico na proteção à infância, mas também reforça a necessidade de preservar e ampliar políticas públicas que sustentaram essa melhora, especialmente em um momento em que a queda dos indicadores ocorre de forma mais lenta.