Nova diretriz da Abeso contraindica remédio isolado para obesidade, define critérios de uso de medicamentos e reforça foco em mudanças de estilo de vida.
(Imagem: Cristian Camilo/Divulgação)
Uma nova diretriz da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) traz um alerta claro: o tratamento farmacológico para obesidade não deve ser usado de forma isolada. Lançado em 2026, o documento posiciona a farmacoterapia como aliada de mudanças de estilo de vida, com aconselhamento nutricional e atividade física, e passa a incorporar critérios mais flexíveis para indicar remédios, que vão além do peso “na balança”.
O que muda na diretriz
Publicada em março de 2026, a Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade reúne cerca de 32 recomendações, organizadas por classes de evidência e níveis de recomendação. O texto é resultado de um grupo de trabalho multidisciplinar, com endocrinologistas, clínicos gerais e nutricionistas, e busca traduzir em linguagem prática o avanço científico recente em medicamentos para perda de peso, como agonistas do receptor de GLP‑1 (ex.: semaglutida) e coagonistas GLP‑1/GIP (ex.: tirzepatida).
Entre os pontos centrais está a reafirmação de que obesidade é uma doença crônica, com risco elevado para diabetes, doenças cardiovasculares, esteatose hepática e diversas neoplasias. A diretriz sublinha que o objetivo do tratamento não é apenas reduzir o peso, mas melhorar ou reverter comorbidades, reduzir complicação cardiometabólica e preservar massa magra e funcionalidade do paciente.
Quando o remédio pode ser indicado
O documento define como critérios principais para indicar tratamento farmacológico um Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m², ou IMC igual ou superior a 27 kg/m² na presença de complicações relacionadas à adiposidade, como hipertensão, diabetes, dislipidemia ou doença coronariana.
Em situações específicas, a diretriz admite considerar medicamentos mesmo com IMC mais baixo, quando há aumento de circunferência da cintura ou de relação cintura‑altura acompanhado de comorbidades metabólicas. Isso significa que, em alguns casos, um paciente com sobrepeso mas risco cardiometabólico elevado pode ser candidato a terapia medicamentosa, desde que avaliado clinicamente e submetido às medidas de segurança recomendadas.
Remédio nunca sozinho
Ponto‑chave da atualização é a contraindicação explícita do uso de tratamento farmacológico isolado. Segundo a diretriz, medicamentos para obesidade devem ser sempre associados a intervenções de estilo de vida, ou seja, dieta adequada, redução de calorias, melhoria da qualidade alimentar e aumento da atividade física regular. Sem essa dupla estratégia, o risco de recuperação de peso é maior e o benefício clínico global é reduzido.
Os autores destacam que intervenções não farmacológicas ainda são a base do manejo da obesidade; o remédio funciona como “empurrão” para viabilizar mudanças sustentáveis, especialmente em pessoas com sobrepeso grave ou com comorbidades que limitam o movimento. A associação entre medicamentos e programas estruturados de emagrecimento também tende a preservar melhor massa muscular e reduzir risco de desnutrição.
Metas clínicas e monitoramento
A diretriz estabelece como meta clínica relevante uma perda de peso de pelo menos 10% do peso inicial, quando possível, pois essa redução se associa a melhora significativa de fatores de risco metabólico e de qualidade de vida. Ainda que nem todos alcancem esse percentual, o objetivo é avançar o mais possível em direção a uma composição corporal mais saudável.
Para isso, o documento reforça a necessidade de monitoramento contínuo: avaliação de efeitos adversos dos medicamentos, ajuste de dose, controle de pressão arterial, glicemia, função hepática e perfil lipídico, além de acompanhamento nutricional e psicológico. A frequência e a profundidade desse acompanhamento variam conforme o perfil do paciente, o tipo de fármaco e o risco cardiometabólico.
Quando o fármaco não é indicado
Além de definir quando usar medicamentos, a diretriz também indica com cuidado quando eles não devem ser empregados. Isso inclui situações de gravidez, amamentação, algumas cardiopatias descompensadas, doenças neurológicas graves e uso de substâncias que interfiram diretamente com o efeito ou a segurança dos fármacos.
Os especialistas também alertam para o uso de substâncias sem evidência robusta, como fórmulas magistrais e produtos manipulados para perda de peso, incluindo combinações com diuréticos, hormônios tireoidianos, esteroides anabolizantes, implantes hormonais ou gonadotrofina coriônica humana (hCG). A orientação é que essas terapias não sejam utilizadas rotineiramente, salvo em contextos muito específicos e com respaldo científico consistente.
Novos cenários e foco individualizado
Outra novidade é a incorporação de situações clínicas mais específicas, como risco cardiovascular, pré‑diabetes, doença hepática gordurosa, osteoartrite, cânceres associados à obesidade, deficiência de testosterona masculina, apneia obstrutiva do sono e perda de massa magra e muscular. A diretriz orienta como escolher e sequenciar medicamentos em cada um desses cenários, associando o benefício de perda de peso à melhora de cada condição associada.
Com isso, a prática passa a ser mais personalizada: não se trata de aplicar uma mesma receita para todos, mas de combinar medicamentos, intensidade de intervenção de estilo de vida e tempo de tratamento conforme histórico clínico, genética, acesso a serviços e realidade psicossocial do paciente. Esse enfoque é visto como um “novo patamar” na forma de lidar com a obesidade no Brasil.
Impacto para a população brasileira
Com mais de 40 milhões de adultos vivendo com obesidade no país, a diretriz da Abeso tem potencial de afetar o modo como o sistema de saúde e clínicos de várias áreas prescrevem medicamentos para emagrecer. A orientação para não usar remédios isolados tende a reforçar a importância de programas de reeducação alimentar, acolhimento multiprofissional e políticas públicas que favoreçam ambientes mais saudáveis.
Para o paciente comum, o recado é claro: comprar “kit magreza”, recorrer a fórmulas manipuladas sem supervisão ou começar uma caneta de emagrecer sem mudar hábitos alimentares e de atividade física não é o caminho apontado como seguro e eficaz. A diretriz reforça que a combinação entre medicamento, dieta adequada e exercício, sempre sob orientação de um profissional de saúde, é o melhor caminho para reduzir riscos e melhorar a qualidade de vida.