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Mulheres assumem papel central no cuidado a pessoas com autismo no Brasil, aponta pesquisa recente

02 abr 2026 - 08h36 Joice Gomes   atualizado às 08h39
Mulheres assumem papel central no cuidado a pessoas com autismo no Brasil, aponta pesquisa recente Descubra como as mulheres lideram o cuidado no autismo no Brasil: pesquisa mostra 86% de mães como principais responsáveis, com desafios de saúde mental e financeira. (Imagem: Ilustração/Símbolo Autismo)

Uma pesquisa divulgada em abril de 2026 reforça que as mulheres, especialmente mães, são as principais responsáveis pelo cuidado diário de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil. O estudo destaca o peso emocional e prático dessa sobrecarga, com impactos na saúde e no bem-estar das cuidadoras.

No Brasil, cerca de 2,4 milhões de pessoas vivem com Transtorno do Espectro Autista (TEA), segundo estimativas recentes baseadas em dados globais da OMS. O diagnóstico precoce e o suporte contínuo são essenciais, mas quem assume a frente desse processo são, em grande maioria, as mulheres. Elas gerenciam terapias, rotinas diárias e demandas emocionais, muitas vezes em detrimento de suas próprias carreiras e saúde.

O estudo "Cuidando de quem cuida", realizado pela Genial Care em 2020 e atualizado com dados complementares em pesquisas subsequentes como "Retratos do Autismo no Brasil em 2023", confirma que 86% dos cuidadores primários de crianças com TEA entre 0 e 12 anos são mães. Dos 14% restantes, 10% são pais e 4% outros familiares. Esses números refletem uma realidade persistente, independentemente de classe social ou escolaridade.

Sobrecarga emocional e dupla jornada

Muitas mães relatam a necessidade de abandonar planos profissionais para se dedicar integralmente ao filho. Camila Nogueira, por exemplo, formou-se em Publicidade em 2004, mas cancelou uma oportunidade no Rio de Janeiro ao receber o diagnóstico do filho Miguel. Hoje, aos 16 anos de jornada, ela apoia outras famílias enquanto cuida dele em tempo integral.

Outras enfrentam a dupla jornada: trabalho remunerado aliado aos cuidados. Giselle, do setor fiscal de uma multinacional, equilibra home office com a rotina do filho Matheus. Antes da pandemia, conciliava emprego das 8h às 18h com escola e terapias; agora, o modelo remoto facilita, mas a exaustão persiste. "Tive que juntar o emprego e tudo que veio com o diagnóstico", conta.

Estudos apontam que 68% das cuidadoras destacam a falta de tempo para descanso como principal dificuldade. No levantamento de 2023, 36% sentem culpa pelo TEA da criança, sendo 89% mulheres. Essa sensação remete a mitos superados, como a "mãe-geladeira" de Leo Kanner, que culpava a frieza materna pelo transtorno.

Desafios no dia a dia das cuidadoras

A insegurança quanto ao futuro é o maior temor: 79% das cuidadoras se sentem inseguras sobre a autonomia adulta da criança. Dificuldades financeiras para terapias afetam 73%, agravando o estresse. Luciana Habermann, mãe de Alice, leu 13 livros sobre autismo e abandonou uma clínica terapêutica por não ver resultados. Grávida do segundo filho na época do diagnóstico, ela fundou a ONG FASA para acolher famílias.

Além disso, 24,2% das pessoas autistas adultas que participaram do estudo de 2023 são também cuidadoras, sugerindo componente genético forte no TEA. Elas enfrentam comorbidades como problemas gastrointestinais (25%), respiratórios (15%) e obesidade (6%), além de riscos mentais: 49% já tiveram autolesão e 7% tentaram suicídio.

  • 86% dos cuidadores primários são mães, dividindo os 14% restantes entre pais e outros;
  • 79% insegurança sobre futuro da criança autista;
  • 68% sem tempo para autocuidado;
  • 36% sentem culpa, majoritariamente mulheres;
  • 1 em 4 autistas adultos cuida de outra pessoa com TEA.

Impactos na saúde e qualidade de vida

A sobrecarga afeta o desempenho ocupacional e a qualidade de vida das mulheres. Pesquisas acadêmicas, como uma da UFPI, mostram que o cuidado com crianças autistas reduz o bem-estar das cuidadoras, com predomínio de mães (85%) em amostras de baixa renda. Outros estudos comparativos indicam qualidade de vida menor entre quem cuida de meninas autistas, devido a quadros mais graves.

No contexto brasileiro, o IBGE incluiu perguntas sobre TEA em 2022, mas dados ainda são escassos. A prevalência global de 1 em 36 crianças (CDC, 2023) sugere 4 milhões de autistas no país, demandando políticas públicas. A Genial Care enfatiza rede de apoio, orientação parental e intervenções baseadas em evidências para aliviar o fardo.

Consequências sociais e caminhos para mudança

Essa desigualdade de gênero no cuidado perpetua estereótipos e sobrecarrega o sistema de saúde familiar. Mães como Luciana defendem o protagonismo parental: "Terapeutas sem filhos falam de limites; pais devem liderar a intervenção". Iniciativas como ONGs e healthtechs como Genial Care e Tismoo.me oferecem suporte, mas faltam investimentos públicos em inclusão e capacitação.

Para o futuro, especialistas recomendam:

  • Políticas de licença parental compartilhada e creches especializadas;
  • Programas de saúde mental para cuidadoras;
  • Diagnóstico precoce via SUS, com foco em meninas (subdiagnosticadas);
  • Rede de apoio comunitária para reduzir isolamento;
  • Estudos longitudinais para mapear envelhecimento autista, com projeção de 5 milhões de idosos com TEA até 2040.

O aumento de diagnósticos, atribuído a critérios DSM-5 e conscientização, exige ação urgente. Mulheres seguem na linha de frente, mas o apoio coletivo pode transformar essa jornada em uma de empoderamento compartilhado. Com 700 mil caracteres de reflexão, o Brasil avança para uma sociedade mais inclusiva.

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