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COP15 encerra em Campo Grande com proteção inédita a mais de 40 espécies migratórias e avanços globais na conservação

30 mar 2026 - 08h54 Joice Gomes   atualizado às 08h56
COP15 encerra em Campo Grande com proteção inédita a mais de 40 espécies migratórias e avanços globais na conservação Em marco de 2026, a COP15 da CMS termina com 40 novas espécies protegidas, 16 ações internacionais e 39 resoluções. (Imagem: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

A 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), sediada em Campo Grande (MS), encerrou nesse domingo (29) com resultados históricos: mais de 40 espécies agora contam com proteção internacional reforçada, 16 novas ações de cooperação global e 39 resoluções obrigatórias para os 132 países signatários, além da União Europeia.

O evento, realizado de 23 a 29 de março no coração do Pantanal, maior planície alagada do mundo, reuniu especialistas em aves, répteis, mamíferos e insetos para debater rotas migratórias que cruzam fronteiras. Sob o lema “Conectando a Natureza para Sustentar a Vida”, a conferência destacou a necessidade de proteger não só os habitats finais, mas os corredores ecológicos essenciais para a sobrevivência dessas espécies.

Liderança brasileira impulsiona proteções

O Brasil, pela primeira vez presidente da COP15, liderou seis das sete propostas nacionais aprovadas para inclusão de espécies nos Anexos I e II da Convenção sobre Conservação de Espécies Migratórias (CMS). O Anexo I abrange animais ameaçados de extinção, com proibições estritas de caça, enquanto o Anexo II exige cooperação internacional para conservação.

Entre as conquistas brasileiras, destacam-se as aves maçarico-de-bico-torto e maçarico-de-bico-virado no Anexo I; o peixe pintado, tubarão cação-cola-fina e caboclinho-do-pantanal no Anexo II; e as aves petréis em ambas as listas. A proposta do tubarão cação-anjo-espinhoso foi retirada para futura reavaliação conjunta com Argentina e Uruguai, devido a debates sobre seu risco real.

João Paulo Capobianco, presidente da COP15, enfatizou o envolvimento de 60 negociadores brasileiros, os maiores experts em suas áreas. “Avançamos 10% na proteção de espécies migratórias ainda não listadas, um recorde em todas as COPs”, afirmou. Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama, reforçou que as decisões da CMS são legalmente vinculantes, obrigando ações concretas.

Avanços globais e espécies em foco

Das 42 propostas mundiais, 40 foram aprovadas, elevando a lista da CMS para cerca de 1.200 espécies. Destaques incluem o guepardo e hiena rayada no Anexo I; nutria gigante (ariranha), tubarão martillo e 24 petréis com proteções variadas. Uma única recusa foi o cervo-de-Bokhara, cuja população melhorou, mas permanece protegido por mais tempo.

No âmbito brasileiro, planos de ação para grandes bagres migratórios amazônicos, tubarão-mangona e tubarão-peregrino foram aprovados. Esses peixes, vitais para a pesca e ecossistemas fluviais, enfrentam barragens e sobrepesca. A ariranha, proposta pela França mas apoiada pelo Brasil, ganha status em ambos os anexos, combatendo o tráfico ilegal.

  • Maçarico-de-bico-torto: migrador das Américas, ameaçado por perda de habitats costeiros.
  • Peixe pintado: icônico na Amazônia, migra milhares de km para desova.
  • Caboclinho-do-pantanal: ave endêmica, depende de áreas úmidas sazonais.
  • Tubarão cação-cola-fina: predador marinho costero, vulnerável à pesca excessiva.
  • Ariranha: mamífero semiaquático, sofre com degradação do Pantanal.

O papel estratégico do Pantanal

Campo Grande foi escolhida por sua proximidade com o Pantanal, bioma crucial para centenas de espécies migratórias. Aves como tuiuiús e migradores boreais param ali para alimentação e reprodução; peixes e mamíferos aquáticos usam suas cheias anuais. Patrick Luna, do Itamaraty, destacou: “Não adianta proteger em um país se a rota passa por outro; exige coordenação global”.

Relatórios da CMS apontam que 24% das espécies listadas estão ameaçadas, com 49% em declínio populacional. O Pantanal, citado em atlas lançados na COP, serve como ponto de parada vital, mas enfrenta secas extremas, incêndios e expansão agropecuária. A conferência aprovou resoluções sobre saúde animal, habitats e infraestrutura energética, que criam barreiras como hidrelétricas.

Consequências e compromissos futuros

As 39 resoluções cobrem desde mobilização de recursos para países em desenvolvimento até estratégias contra mudanças climáticas, que alteram rotas migratórias. Um acordo inédito cria plataformas de financiamento, ajudando nações como o Brasil a cumprir metas. “Essa COP reforça o multilateralismo: problemas globais demandam soluções coletivas”, disse Luna.

Para o Brasil, os ganhos impactam economias locais: turismo no Pantanal gera milhões, e pesca sustentável na Amazônia sustenta comunidades ribeirinhas. Especialistas preveem que as proteções reduzam extinsões locais e fortaleçam a biodiversidade, alinhando-se à COP30 em Belém (PA), em 2025. No entanto, desafios persistem, como fiscalização em áreas remotas e integração com legislações nacionais.

Capobianco alertou para o avanço gradativo: de 400 espécies migratórias não listadas, apenas 10% agora ganha atenção. A CMS, única convenção global sobre o tema, coordena 133 partes desde 1979, priorizando migrações transfronteiriças de aves (90% das espécies listadas), mamíferos marinhos e peixes.

Legado da COP15 para o mundo

O sucesso da conferência em Campo Grande marca um turning point na conservação migratória. Com decisões vinculantes, países devem implementar planos nacionais, monitorar populações e restaurar corredores ecológicos. No Brasil, o Ibama e MMA liderarão ações, como atlas de rotas de aves vulneráveis lançados no evento.

Enquanto o planeta perde habitats a ritmos alarmantes, 85% das zonas úmidas desde 1700, a COP15 sinaliza esperança. Espécies como os bagres gigantes, que migram 5 mil km na Amazônia, e petréis oceânicos ganham ferramentas para sobreviver. O Pantanal, porta de entrada do evento, simboliza essa conexão vital entre nações e natureza.

Os próximos triênios trarão relatórios de implementação; falhas podem levar a sanções diplomáticas. Para cientistas, o marco eleva a CMS como pilar da biodiversidade, complementando CITES e Convenção da Biodiversidade. O Brasil sai fortalecido, provando que liderança ambiental une diplomacia e ciência.

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